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A mulher que és hoje

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A mulher que és hoje

Há algo que faço com alguma frequência e que, à primeira vista, pode parecer um hábito um pouco estranho. Gosto de reservar algum tempo para abrir o armário, experimentar roupa, criar combinações diferentes e de fazer experiências com a maquilhagem. Nem sempre tenho um evento para ir, nem uma razão especial para o fazer. Faço-o simplesmente porque gosto.

Durante muito tempo achei que isto era apenas uma forma de expressar criatividade. E, em parte, é. Mas com os anos percebi que existe algo mais profundo nestes momentos que são só meus.

Quando estou ali, sem pressa, a experimentar uma peça que não usava há meses ou uma combinação que nunca me tinha ocorrido, sinto que estou a dar espaço a uma parte de mim que, durante muitos anos, esteve ocupada a cuidar de tudo e de todos.

É uma espécie de reencontro comigo mesma.

Talvez porque, à medida que envelhecemos, vamos acumulando papéis. Tornamo-nos profissionais, companheiras, mães, cuidadoras. Aprendemos a responder às necessidades dos outros e a cumprir responsabilidades. E, sem darmos conta, deixamos cada vez menos espaço para a curiosidade, para a criatividade e para a brincadeira.

Vejo isto frequentemente nas mulheres que acompanho.

Muitas chegam à menopausa com a sensação de que perderam alguma coisa pelo caminho. Não sabem exatamente o quê, mas sentem que existe uma distância entre a mulher que são hoje e aquela que gostariam de ser.

Por vezes falamos sobre sintomas. Outras vezes falamos sobre sono, alimentação ou exercício. Mas há conversas que surgem repetidamente e que não aparecem em nenhuma análise clínica.

“Já não me reconheço.”

“Já não sei bem quem sou.”

“Sinto que passei tantos anos a cuidar dos outros que me esqueci de mim.”

São frases que ouço muitas vezes.

E talvez sejam das mais importantes.

Porque a menopausa não é apenas uma transição hormonal. É também uma transição de identidade.

Durante décadas, muitas mulheres viveram orientadas para aquilo que era necessário fazer. Criar filhos. Construir uma carreira. Cuidar da família. Cumprir expectativas. Resolver problemas.

E depois, um dia, o corpo abranda o suficiente para fazer uma pergunta que andava escondida há muito tempo:

“Quem és tu, para além de tudo aquilo que fazes?”

Nem sempre é uma pergunta confortável.

Aliás, muitas vezes é profundamente desconfortável.

Porque obriga-nos a reconhecer que talvez continuemos a viver de acordo com versões antigas de nós próprias.

A versão que tinha 30 anos.

A versão que vivia para agradar.

A versão que acreditava que precisava de estar sempre disponível.

A versão que colocava as suas necessidades em último lugar.

A versão que tinha um corpo diferente e que continua a servir de referência para tudo.

Tal como algumas pessoas guardam roupa que já não usam há anos, também guardamos versões de nós que já não existem. E não há nada de errado nisso. Todas essas mulheres merecem ser honradas. Mas honrar não é o mesmo que permanecer.

Por vezes continuamos tão ocupadas a tentar recuperar quem fomos que não damos espaço para conhecer quem estamos a tornar-nos. E talvez seja precisamente aqui que reside uma das maiores oportunidades desta fase da vida. A possibilidade de voltar a escolher. Escolher o que queremos manter e aquilo que já não nos serve. Escolher os hábitos que queremos construir e a forma como queremos viver os próximos anos. Na verdade, escolher quem queremos ser.

Quando penso no verdadeiro significado de autocuidado, não penso apenas em alimentação, exercício ou suplementos. Penso também na capacidade de reservar tempo para mim. Para ser curiosa. Para experimentar. Para criar. Para brincar. Porque existe uma parte de todas nós que continua a precisar disso, independentemente da idade que temos.

E talvez a menopausa seja precisamente o momento ideal para voltar a encontrá-la. Com carinho.

 

Um exercício para reencontrares a mulher que és hoje

Antes de responderes às perguntas seguintes, quero pedir-te uma coisa: não tentes encontrar a resposta perfeita. Não respondas aquilo que achas que deverias sentir. Responde apenas aquilo que é verdadeiro para ti neste momento. Pega num caderno, encontra um lugar tranquilo e dá-te permissão para refletir.

1. As três mulheres

Ao longo da vida vamos acumulando diferentes versões de nós próprias. Escreve algumas linhas sobre cada uma destas mulheres:

A mulher que fui.

Quem era ela? O que valorizava? O que a preocupava? O que sonhava para o futuro?

A mulher que sou hoje.

Como te descreverias neste momento da tua vida? O que mudou? O que aprendeste? O que te surpreende em ti?

A mulher que me estou a tornar.

Quando imaginas os próximos anos, que características gostarias de cultivar? O que queres preservar? O que queres deixar para trás?

2. O que continuo a carregar?

Muitas vezes não são apenas objetos que ocupam espaço. São expectativas. Culpa. Comparações. Exigências. Pergunta-te:

  • Que peso emocional continuo a carregar?
  • O que já não me serve nesta fase da vida?
  • O que estou a manter apenas por hábito?

3. O espelho

Hoje, quando te olhares ao espelho, faz um exercício diferente. Em vez de procurares aquilo que queres corrigir, procura três coisas que aprecias em ti. Podem ser características físicas, qualidades ou conquistas. O objetivo não é ignorar as mudanças. É aprender a olhar para ti com mais gentileza.

4. Criar espaço

Completa esta frase:

Se deixasse de tentar ser a mulher que fui, teria mais espaço para ser a mulher que…

Escreve sem filtros, sem julgamentos, sem expectativas.

5. A tua Pausa MERA (a nossa rúbrica de todas as sextas-feiras…)

Esta semana reserva uma hora apenas para ti. Não para seres produtiva, nem para resolver problemas ou para cuidares de alguém. Uma hora dedicada exclusivamente ao prazer, à curiosidade e à criatividade.

Pode ser experimentar roupa. Pode ser pintar. Pode ser dançar. Pode ser caminhar. Pode ser qualquer coisa que te faça perder a noção do tempo.

Porque o autocuidado não é apenas aquilo que fazemos para prevenir a doença. Também é aquilo que fazemos para alimentar a alegria de estarmos vivas… e essa continua a ser uma necessidade em qualquer fase da vida.