Colesterol “bom”…colesterol “mau”… será que é assim tão simples?
Há uma frase que quem acompanha o meu trabalho já me ouviu dizer muitas vezes, seja em consulta, num podcast ou nas redes sociais:
“Não existe colesterol bom e colesterol mau” Existe colesterol.
E o colesterol é transportado por diferentes lipoproteínas, com diferentes densidades. As lipoproteínas LDL, VLDL e os seus remanescentes, transportam o colesterol para os tecidos e podem penetrar na parede das artérias, favorecendo a formação de placas de aterosclerose. Já as lipoproteínas HDL participam no chamado transporte reverso do colesterol, ajudando a removê-lo dos tecidos e a encaminhá-lo para o fígado. O problema, por isso, não é o colesterol em si, mas sim o número de partículas potencialmente aterogénicas que circulam no sangue.
E temos como medir isso nas análises? Temos sim.
É precisamente aqui que entra a Apolipoproteína B, que reflete o número total de partículas capazes de iniciar ou alimentar a aterosclerose. Por isso, a ApoB é hoje considerada um dos melhores marcadores do risco cardiovascular, sendo muito mais informativa do que o valor isolado das lipoproteínas LDL.
Os exames são ferramentas extraordinárias. Ajudam-nos a perceber o que se passa no organismo, orientam decisões e permitem-nos prevenir doença. Mas, por si só, nunca contam a história toda. E é precisamente por isso que gosto de lembrar que, na medicina, os números têm sempre de ser interpretados no contexto da pessoa que está à nossa frente.
Esta reflexão surgiu-me depois de ler um artigo muito interessante sobre o chamado *”colesterol bom”*, ou melhor dizendo, sobre a lipoproteína HDL que transporta colesterol. Durante décadas aprendemos que um valor de HDL elevado era sinónimo de proteção cardiovascular. Se esse valor estivesse alto nas análises, respirávamos de alívio. Afinal, era o “colesterol bom”.
Mas será mesmo assim?
A ciência tem-nos mostrado que a resposta é muito mais complexa.
O valor de HDL continua a ser um marcador importante, mas hoje sabemos que, quando elevado, não significa automaticamente que estamos protegidos contra a doença cardiovascular. O exame que fazemos nas análises mede apenas a quantidade de colesterol transportada pelas lipoproteínas HDL. Não nos diz se essas partículas estão a funcionar corretamente, se conseguem remover colesterol das artérias nem qual é, verdadeiramente, o risco cardiovascular daquela pessoa.
E esta diferença é mesmo muito importante.
Recentemente, uma doente minha contou-me a sua história. Durante anos teve um valor de HDL sempre acima dos 100 mg/dL. Todos lhe diziam que estava tudo bem porque tinha um “bom colesterol” muito elevado. Mas ela continuava com a sensação de que alguma coisa não batia certo e insistiu em fazer uma avaliação mais aprofundada. Acabou por descobrir uma obstrução significativa numa das principais artérias do coração. Se tivesse confiado apenas naquele número, provavelmente esse problema teria continuado escondido.
É exatamente por isso que insisto tanto em que não se interprete determinados valores analíticos isoladamente.
Não podemos tomar decisões com base no facto de um dado marcador estar alto ou baixo. Temos sempre de olhar para o conjunto. Para os valores de LDL, para a ApoB, para os triglicerídeos, para a HbA1c, para a tensão arterial, para a história familiar, para os hábitos de vida, para a presença de inflamação (pedindo o valor de PCR-ultra sensível nas análises) e, quando faz sentido, para exames que nos mostram diretamente como estão as artérias. Porque o risco cardiovascular não vive num único número. Vive na fotografia completa.
Durante muitos anos tentou-se até aumentar o HDL com medicamentos, acreditando que isso reduziria automaticamente o risco cardiovascular. Mas os grandes estudos mostraram que não é assim tão simples. Hoje, nenhuma das principais recomendações internacionais define o aumento do HDL como objetivo terapêutico. E isso diz-nos muito sobre a evolução do conhecimento científico.
Talvez esteja na altura de começarmos a abandonar as expressões “colesterol bom” e “colesterol mau”, precisamente porque acabaram por criar uma falsa sensação de segurança ou então de risco em muitas pessoas. A realidade é que não existem o “bom” ou o “mau”. Existem resultados que precisam de ser compreendidos dentro da história clínica de cada pessoa.
É por isso que, quando alguém me pergunta: “Dra., as minhas análises estão boas?”, nunca consigo responder com uma simples “vistinha de olhos”. Confesso que é algo que me incomoda, porque revela a ideia de que interpretar análises se resume a confirmar se os valores estão “dentro dos limites”. Na realidade, a interpretação clínica exige integrar o contexto, os sintomas, os antecedentes, a medicação, os objetivos terapêuticos e a relação entre os vários parâmetros solicitados.
Se queremos uma medicina verdadeiramente personalizada, não faz sentido reduzir esse processo a uma leitura rápida na diagonal. Então porque continuamos a pedir ao médico apenas que dê uma “vistinha de olhos” às análises?
Se há uma mensagem que gostaria que levasse desta newsletter é esta: não deixe que um único número lhe dê uma falsa sensação de segurança — nem um medo desnecessário. Os exames são fundamentais, mas são apenas uma peça do puzzle. O nosso papel é juntar todas as peças para perceber a imagem completa.
Acredito que prevenir doença não é tratar análises. É compreender a pessoa que existe por detrás delas. Porque os números orientam-nos, mas nunca substituem uma avaliação individualizada. E é essa visão global que faz, verdadeiramente, a diferença na prevenção e na longevidade.





