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Menopausa no Masculino: Guia de sobrevivência

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Menopausa no Masculino: Guia de sobrevivência

Vamos aos factos.

A menopausa não impacta só a mulher. Impacta os dois. Na verdade, estende-se a toda a família. Os filhos notam a falta de paciência da mãe… Tu notas a falta de paciência da tua mulher/companheira… e assim do nada, começa a passar na tua cabeça aquela ideia insistente “ela não era assim…”

A realidade? O cérebro dela está a mudar. Literalmente.

Imagina por instantes que a tua mulher passou a viver dentro de um estaleiro de obra. Está tudo em transformação: paredes, ligações, entradas e saídas… e ela fechada dentro do seu cérebro em obras, a tentar perceber como viver 24 sobre 24 horas no meio do caos mental que de repente passou a ser parte do seu dia-a-dia.

As imagens de ressonância magnética do cérebro da mulher em menopausa mostram, por exemplo, a diminuição temporária da atividade das áreas ligadas à memória e ao controlo emocional. Há zonas do cérebro a passar por um processo de poda – um pouco como o que acontece com as árvores, só que aqui o cérebro “corta” ligações que já não funcionam de forma eficiente. É uma espécie de revisão elétrica: desliga alguns fios para reforçar outros. No curto prazo, isto pode originar aquelas mudanças que te surpreendem: os esquecimentos…contigo a dizer: “Mas ainda agora te disse…”; distrações e, claro, aquelas reações mais bruscas que nem tu percebes de onde vieram. Mas não. Não é o mau feitio a instalar-se. Está a passar por uma recalibração cerebral forçada pelas hormonas.

Este é o momento em que tu pensas: “Recalibração? …Mas que raio…”

Tal como tu, a maioria dos homens sabe muito pouco sobre a menopausa. E não é responsabilidade vossa. Ninguém fala de menopausa e ninguém vos ensinou. Mas queres saber a parte pior? Também ninguém lhes ensina, à parte envolvida, que tudo vai mudar. Estão às cegas. Entram casa a dentro, começam as obras, mas esqueceram-se de as avisar.

Muitas mulheres chegam à perimenopausa (que, espanta-te, pode começar tão cedo quanto os 35 anos), sem estar preparadas para o que esta transição hormonal faz ao corpo e ao cérebro. Na verdade, ninguém está preparado. Nem elas, nem vocês. Mas, vamos mudar isso!

 

A fase que antecede a menopausa

Um dos maiores mitos é que a menopausa significa o fim da menstruação. Mas já percebeste que esta questão é muito mais ampla e profunda. A menopausa é só o culminar de obras que duram anos, sendo então a perimenopausa a fase em que as alterações estão mesmo a acontecer, podendo durar 7 a 10 anos. É nesta fase de transição que três hormonas importantes (estradiol, progesterona e testosterona) deixam de ser produzidas pelos ovários que são, neste caso, o mestre de obras. Quase todos os órgãos e sistemas do corpo da mulher são afetados: cérebro, ossos, músculos, vasos sanguíneos, bexiga, sistema imunitário, pele… pensa num órgão… e sim… vai ser afetado.

Muitas mulheres descrevem sentir-se exaustas, mas “elétricas”, incapazes de dormir profundamente, porque a progesterona que antes trazia equilíbrio começa agora a desaparecer. A testosterona também importa nas mulheres. Não sabias que é mesmo a hormona que mais produzem, pois não? Suporta a massa muscular, a força óssea, o desejo sexual e a energia. Mas quando perdem a hormona rainha, o estradiol (um tipo de estrogénio), o impacto combinado pode ser dramático: perda de vitalidade, de massa muscular, de desejo sexual, somados à insónia, névoa mental, alterações de peso e à sensação de que o corpo mudou de um dia para o outro.

Para vocês, na andropausa, a testosterona cai gradualmente – cerca de 1% ao ano a partir da meia-idade, mas se perdessem a maior parte da testosterona em meia dúzia de anos, garantidamente que ninguém vos diria: “Aguenta que passa”. No entanto, é exatamente isso que as mulheres têm ouvido ao longo de gerações sobre uma das mudanças hormonais mais intensas do corpo humano.

 

Quem és tu?

A menopausa pode ser um momento de confronto para muitos casais. Expõe áreas da relação que estavam em “piloto automático”. Pode revelar necessidades não ditas, tensões escondidas ou distâncias criadas ao longo dos anos. Mas nem sempre é uma crise. Para muitos casais, é uma oportunidade. Uma pausa para perguntar: “De que precisamos agora? Como será a intimidade nesta nova fase? O que significa, de verdade, apoia-la quando todo o corpo dela está a mudar?”

Algumas das minhas consultas mais marcantes são quando o parceiro as acompanha. Ele senta-se ao lado dela. Vem para ouvir e perguntar o que podem fazer juntos para que aquela mulher volte a sentir-se bem. Vejo o alívio no rosto dela ao perceber que não precisa lutar sozinha para encontrar todas as respostas. Ele não quer que sofra em silêncio. Quer vê-la bem.

Quando um casal atravessa esta fase com conhecimento, Medicina atualizada, e comunicação, a proximidade que surge entre os dois pode ser mais forte e profunda do que antes.

 

Tratamento

O que a ciência nos mostra é que iniciar terapêutica hormonal, quando necessário, nos primeiros anos destas alterações, pode proteger a massa muscular e a densidade óssea, reduzir o risco de fraturas, melhorar o sono, aliviar afrontamentos e suores noturnos, e preservar a saúde sexual e vaginal. As hormonas que usamos hoje não são o que os estudos antigos fizeram temer. Quando bem prescritas e devidamente acompanhadas, são mais seguras, bem toleradas e podem preservar a saúde e a vitalidade da mulher durante anos.

Então, a que sinais deves estar atento na tua mulher:

  • Irritabilidade, ansiedade e sintomas depressivos
  • Ondas de calor, suores noturnos (ela acorda encharcada em suor durante a noite)
  • Insónia e cansaço constante
  • Alterações da libido com queixas de falta de desejo e redução da lubrificação vaginal
  • Aumento de peso, sobretudo abdominal
  • Baixa autoestima
  • Dor muscular e articular constante mas que muda de local
  • Maior sensibilidade emocional

 

Como a podes ajudar:

  • Valida-a: não lhe digas que é “da cabeça dela”. Só a vais deixar triste e isolada.
  • Apoio médico: incentiva-a a procurar ajuda se for necessário. A terapêutica hormonal, quando feita de forma correta, pode mudar tudo.
  • O sono é sagrado: protege as horas de descanso dela. Não ligues a televisão no quarto, nem a acordes durante a noite. Evita tensões e sobrecarga com tarefas domésticas quando precisa de dormir.
  • Menos carga: a menopausa coincide muitas vezes com filhos adolescentes, pais idosos, uma carreira no auge. Ajuda-a com as responsabilidades.
  • Sexo sem tabu: fala sobre o que mudou. Há soluções médicas e práticas. O silêncio só agrava a distância.
  • Afeto e presença: gestos simples como o abraço e o ouvir ajudam muito a reduzir o stress e aumentam a sensação de segurança.

 

Lembra-te, a tua mulher/companheira só precisa de sentir que não está a passar por tudo sozinha